Menopausa química após o câncer de mama: manejo dos sintomas e segurança terapêutica

Escrito por: Luana de Castro – Farmacêutica e Sexóloga

Receber o diagnóstico de câncer de mama e passar pelo tratamento representa uma experiência que ultrapassa o enfrentamento da própria doença. Para muitas mulheres, especialmente aquelas que ainda estavam menstruando no momento do diagnóstico, o tratamento pode provocar uma menopausa abrupta, conhecida como menopausa química ou induzida pelo tratamento.

Quimioterapia, supressão ovariana (análogos do LHRH) e tratamentos endócrinos reduzem ou interrompem a produção ovariana de estrogênio, provocando sintomas semelhantes aos da menopausa natural, porém frequentemente mais intensos e repentinos. Os medicamentos utilizados no tratamento endócrino, como o tamoxifeno e os inibidores da aromatase (letrozol, anastrozol, exemestano), contribuem significativamente para a severidade desse quadro.

O Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, reconhece o câncer de mama como uma condição que exige atenção especializada na escolha das estratégias terapêuticas para os sintomas climatéricos. A boa notícia é que não é necessário simplesmente “aguentar” os sintomas: existem abordagens farmacológicas inovadoras, hormonais e não hormonais, comportamentais, nutricionais e cuidados integrais capazes de devolver a qualidade de vida à mulher.

1. Como saber se estou passando por uma menopausa química?

A menopausa química pode se manifestar por um conjunto amplo de sinais e sintomas corporais, emocionais e metabólicos:

Ondas de calor (fogachos) e suor noturno

Caracterizam-se por sensações repentinas de calor intenso que iniciam no rosto, pescoço ou tórax e se espalham pelo corpo, acompanhadas de rubor, sudorese profusa e palpitações, seguidas por calafrios. Podem ocorrer de dia e de noite, prejudicando o trabalho, a concentração e o sono.

Alterações do sono

Dificuldade para adormecer, despertares noturnos frequentes, sono superficial, cansaço diurno e deficit de memória. Uma metanálise envolvendo mais de 28 mil mulheres em tratamento de câncer de mama apontou uma prevalência global de 62% de baixa qualidade do sono, fortemente correlacionada com fogachos, dor e fadiga.


Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGM) e Saúde Sexual

A privação estrogênica provoca ressecamento vaginal, ardência, prurido, dispareunia (dor na penetração), pequenos sangramentos após a relação, urgência urinária e infecções vaginais e urinárias de repetição. Vale ressaltar que a mulher pode manter o desejo sexual, mas a dor e a falta de lubrificação podem afetar o prazer, gerar ansiedade e afastamento da intimidade. Sintomas persistentes por mais de 6 meses configuram disfunção sexual e exigem abordagem multidisciplinar especializada.


Alterações emocionais, físicas e metabólicas

Irritabilidade, ansiedade, depressão, fadiga crônica, perda de massa muscular, ganho de gordura abdominal, dores articulares (frequentes com inibidores da aromatase) e redução acentuada da densidade mineral óssea.
Quando vários desses sintomas aparecem simultaneamente, é importante procurar atendimento. Menopausa química é uma condição clínica que merece tratamento e acompanhamento.

2. Terapia de Reposição Hormonal (TRH) após o Câncer de Mama: O que diz a literatura?

A realização de Terapia de Reposição Hormonal (TRH) sistêmica após o tratamento do câncer de mama é um tema amplamente estudado na oncologia e ginecologia moderna.

Para pacientes com histórico de câncer de mama, especialmente aqueles com receptores hormonais positivos (RE+/RP+), a TRH sistêmica (estrogênio isolado ou combinado com progestágeno) é contraindicada pelas principais diretrizes internacionais (ASCO, NCCN, EMAS). Ensaio clínico randomizado seminal (estudo HABITS) demonstrou um aumento significativo do risco de recorrência do câncer de mama em mulheres que utilizaram TRH sistêmica comparadas ao grupo controle.

Embora o estudo LIBERATE (com tibolona) tenha avaliado uma opção não esteroidal para alívio sintomático, os resultados também evidenciaram maior taxa de recidiva tumoral em pacientes com antecedentes de câncer de mama. Assim, para sintomas vasomotores e sistêmicos, a conduta padrão ouro e segura consiste no uso restrito de terapias não hormonais.

3. Opções Farmacológicas Não Hormonais:

3.1 Tratamento de sintomas vasomotores

Para o manejo dos sintomas vasomotores (fogachos) sem recorrer a hormônios, o arsenal farmacológico conta com opções consolidadas e uma recente e importante inovação tecnológica:

  • Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (ISRS/IRSN): Venlafaxina, escitalopram e citalopram são amplamente recomendados de primeira linha. A venlafaxina reduz os fogachos em até 66%.
  • Gabapentinóides: Gabapentina e pregabalina, especialmente úteis quando há insônia associada.
  • Anticolinérgicos e Centrais: Oxibutinina e clonidina para casos selecionados.

Tamoxifeno e a Enzima CYP2D6: Cuidado na prescrição de antidepressivos

.O tamoxifeno é um pró-fármaco que depende da enzima hepática CYP2D6 para se converter em seu metabólito ativo mais potente, o endoxifeno. O uso concomitante de medicamentos inibidores potentes da CYP2D6 reduz a eficácia antitumoral do tamoxifeno. Paroxetina, fluoxetina e bupropiona são inibidores potentes e DEVEM SER EVITADOS em usuárias de tamoxifeno. Por outro lado, venlafaxina, citalopram e gabapentina não interferem na CYP2D6 e são escolhas seguras.

Novidade chegando: Fezolinetanto

O fezolinetanto representa um marco no tratamento dos sintomas vasomotores moderados a graves. Trata-se de um antagonista não hormonal do receptor de neurokinina 3 (NK3). No cérebro (hipotálamo), o declínio do estrogênio desregula os neurônios KNDy, alterando o centro termorregulador. O fezolinetanto bloqueia a sinalização de neurokinina B nesses neurônios, restaurando o equilíbrio térmico corporal sem exercer atividade estrogênica sistêmica ou mamária.

Estudos clínicos de fase III (programas BRIGHTON e SKYLIGHT) publicados em revistas de alto impacto comprovaram sua elevada eficácia na redução da frequência e gravidade dos fogachos e melhora na qualidade do sono, apresentando perfil de segurança adequado e sem estimular a proliferação do tecido mamário ou endometrial. É uma opção revolucionária para pacientes com histórico de câncer de mama.

3.2 Tratamento dos Sintomas Geniturinários (SGM)

Para o ressecamento e dor vaginal, a abordagem inicial deve ser não hormonal:

  • Hidratantes vaginais de uso contínuo (contendo ácido hialurônico ou policarbofila).
  • Lubrificantes à base de água ou silicone durante a atividade sexual.
  • Fisioterapia do assoalho pélvico,
  • Uso de dilatadores e estimuladores/vibradores para revascularização tecidual;
  •  Laser de CO2 fracionado: parte da ginecologia regenerativa e ajudam a reverter os sintomas da atrofia vaginal, que é o ressecamento e o afinamento da mucosa causados pela queda de hormônios após o tratamento oncológico.

E quando as medidas não hormonais falham? As diretrizes da North American Menopause Society (NAMS/AMS) e ESMO indicam que o uso de estrogênio vaginal em ultrabaixa dose (estriol ou estradiol local) pode ser considerado após discussão multidisciplinar individualizada. Em mulheres usando tamoxifeno, a absorção mínima do estrogênio local geralmente é bem tolerada. Já em pacientes em uso de inibidores da aromatase (IA), a cautela deve ser extrema, pois mesmo pequenas elevações no estrogênio circulante podem contrariar o mecanismo de ação do IA; nesses casos, alternativas como a prasterona (DHEA vaginal) ou laser/radiofrequência pélvica sob supervisão podem ser avaliados.

3.3 Abordagem do Risco de Osteopenia e Osteoporose

A menopausa química induzida por quimioterapia ou supressão ovariana, somada ao uso de inibidores da aromatase (que bloqueiam a conversão periférica de estrogênio), provoca um estado de hipoestrogenismo severo e rápido. Isso acelera a reabsorção óssea e aumenta drasticamente o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas por fragilidade.

Recomendações Clínicas e Avaliação Diagnóstica

  • Densitometria Óssea (DXA): Deve ser realizada no início do tratamento endócrino (baseline) e monitorada a cada 1 a 2 anos em todas as pacientes em uso de inibidores da aromatase ou com menopausa precoce.
  • Avaliação do Risco FRAX: Ferramenta para calcular o risco de fratura osteoporótica em 10 anos.

Medidas Farmacológicas e Nutricionais

  • Suplementação de Cálcio e Vitamina D: Ingestão diária recomendada de 1.000 a 1.200 mg de cálcio (priorizando a via alimentar) e suplementação de Vitamina D3 para manter níveis séricos de 25(OH)D acima de 30 ng/mL
  • Antirreabsortivos Ósseos (Bisfosfonatos): Medicamentos como o ácido zoledrônico (IV) ou alendronato de sódio (VO) são indicados não apenas para prevenir e tratar a osteoporose, mas também demonstraram benefício adjuvante na redução de metástases ósseas e melhora da sobrevida global em mulheres pós-menopáusicas com câncer de mama inicial.
  • Anticorpo Monoclonal (Denosumabe): O denosumabe (inibidor do RANKL, 60 mg SC a cada 6 meses) aumenta significativamente a densidade mineral óssea e reduz o risco de fraturas vertebrais e não vertebrais em mulheres em uso de inibidores da aromatase (conforme demonstrado no ensaio clínico ABCSG-18).
  • Estilo de Vida: Exercícios de impacto e fortalecimento muscular (resistidos) são indispensáveis para estimular a osteogênese mecânica.

4. Estilo de Vida e Abordagem Integrativa

O cuidado integral da mulher em menopausa química envolve:

  • Alimentação e Fitoestrogênios: Consumo de soja, tofu, sementes de linhaça (fonte de lignanas) e legumes no padrão alimentar. Metanálises (como a do JNCI Cancer Spectrum) mostram que o consumo moderado de isoflavonas na dieta é seguro e associado a menor risco de recorrência. Deve-se diferenciar o alimento do suplemento concentrado isolado.
  • Atividade Física e Yoga: Treinamento de força melhora massa muscular, dores articulares e densidade óssea. Práticas de yoga e mindfulness reduzem a fadiga oncológica e a ansiedade e melhoram a qualidade do sono.
  • Higiene do Sono e Ritmo Circadiano: Manter regularidade de horários, exposição à luz solar pela manhã e restrição de telas à noite apoia a drenagem glinfática cerebral e a regeneração neuroemocional, melhoram a qualidade do sono impactando o metabolismo como um todo.

Conclusão

A menopausa química secundária ao tratamento do câncer de mama exige um olhar especializado e empático. Embora a terapia hormonal sistêmica tradicional seja contraindicada na maioria dos casos, o avanço da medicina trouxe opções inovadoras, além de tratamentos consagrados para ondas de calor, estratégias seguras para a saúde vaginal e uma abordagem farmacológica rigorosa para a proteção óssea. Nenhuma mulher precisa passar por essa fase sem suporte: converse com sua equipe multidisciplinar para construir um plano terapêutico seguro e individualizado.

Grande parte dessas informações também é aplicável às mulheres com sintomas climatéricos que possuem contraindicação de terapia de reposição hormonal por outras razões ou que simplesmente não desejam fazê-la. Portanto, se você achou o conteúdo interessante e acha que ele pode ajudar mais mulheres, compartilhe pelas redes sociais,  

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Referências

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