Câncer de mama gestacional: o que toda mulher precisa saber

Receber o diagnóstico de câncer de mama durante a gravidez ou no período de amamentação é uma experiência que mistura medo, insegurança e muitas dúvidas. Afinal, justamente no momento em que a mulher está gerando ou nutrindo uma vida, surge a necessidade de enfrentar um tratamento oncológico.

O câncer de mama gestacional é definido quando o tumor é diagnosticado durante a gravidez ou até 12 meses após o parto e é considerado o tipo de câncer mais comum nesse período e também pode aparecer durante a amamentação.

Embora pareça raro, ele ocorre em aproximadamente uma a cada três mil gestantes e corresponde a cerca de 4% dos casos de câncer de mama, com tendência de crescimento nos últimos anos. Isso acontece principalmente porque muitas mulheres estão engravidando mais tarde, faixa etária em que o câncer de mama se torna mais frequente.

Além disso, fatores ligados ao estilo de vida moderno também influenciam, assim como menos número de filhos e períodos menores de amamentação.

Gravidez e Amamentação: fatores de proteção contra o câncer de mama

Um ponto importante e pouco falado é que a própria gravidez e a amamentação oferecem proteção natural contra o câncer de mama.

Estudos mostram que:

  • cada parto reduz o risco em cerca de 7%;
  • a amamentação reduz o risco de 4,3% a 6% a cada período de 12 meses de amamentação. A proteção é ainda maior para aleitamentos prolongados (por um ano ou mais) e protege até mesmo contra subtipos agressivos, como o câncer triplo-negativo.

Porém, a idade da primeira gravidez também influencia. Mulheres que têm o primeiro filho antes dos 25 anos apresentam menor risco futuro de câncer de mama quando comparadas às que engravidam após os 30 anos.

Isso porque além da redução da exposição prolongada aos hormônios femininos (como o estrogênio) que podem estimular o crescimento tumoral, também ocorrem alterações nos tecidos das mamas, promovendo a maturação das células mamárias, eliminando aquelas com lesões no material genético, que poderiam originar um câncer.

Mas é importante lembrar que mesmo sendo fatores de proteção, isso não significa que mulheres jovens, grávidas ou lactantes estejam totalmente livres da doença, pois sua expressão depende de fatos externos (alimentação, sedentarismo, uso de álcool e outras drogas) e internos (genéticos, condições clínicas preexistentes).

É possível tratar o câncer durante a gravidez?

Sim. Hoje já se sabe que, em muitos casos, é possível realizar o tratamento de forma segura para a mãe e para o bebê.

O planejamento do tratamento precisa ser individualizado e feito por uma equipe multidisciplinar composta por:

  • oncologista;
  • mastologista;
  • obstetra de alto risco;
  • anestesista;
  • neonatologista;
  • psicólogo;
  • especialista em amamentação.

O principal objetivo continua sendo o mesmo: tratar adequadamente o câncer, sem comprometer a segurança fetal.

As decisões dependem de vários fatores:

  • tamanho do tumor;
  • estágio do câncer;
  • idade gestacional;
  • localização da doença;
  • necessidade de tratamento imediato;
  • saúde geral da paciente;
  • preferências da mulher e da família.

Cirurgia na gravidez

A cirurgia para remover o câncer de mama e os gânglios linfáticos próximos é uma parte importante do tratamento para qualquer mulher com câncer de mama em estágio inicial e, geralmente, é segura durante a gravidez.

Dependendo do caso, pode ser realizada:

  • mastectomia (retirada total da mama);
  • cirurgia conservadora com a retirada apenas do tecido com o câncer (lumpectomia).

A anestesia geralmente pode ser utilizada com segurança, mas exige planejamento cuidadoso e acompanhamento obstétrico especializado para decidir o melhor momento para que seja realizada.

Tratamentos adjuvantes

Dependendo do estágio do câncer, você pode precisar de tratamento adicional, como quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal e/ou terapia-alvo após a cirurgia, para ajudar a reduzir o risco de recorrência do câncer, chamado de tratamento adjuvante. Em alguns casos, esse tratamento pode ser adiado para depois do parto.

Quimioterapia durante a gravidez: quando pode ser feita?

Essa é uma das maiores dúvidas das pacientes.

A quimioterapia:

  • não é recomendada no primeiro trimestre, fase em que ocorre a formação dos órgãos do bebê;
  • pode ser utilizada com relativa segurança no segundo e terceiro trimestres, dependendo do medicamento.

Os quimioterápicos mais estudados nesse contexto incluem:

  • doxorrubicina;
  • ciclofosfamida;
  • fluorouracil;
  • taxanos.

Os estudos mais recentes mostram que, quando utilizados após o primeiro trimestre, esses medicamentos não aumentam significativamente o risco de malformações congênitas e de problemas de saúde no bebê.

Por outro lado, pode haver maior risco de:

  • parto prematuro;
  • baixo peso ao nascer;
  • necessidade de cuidados neonatais.

Por isso, o acompanhamento obstétrico rigoroso é essencial.

Quando a quimioterapia é contraindicada?

A quimioterapia normalmente é evitada:

  • no primeiro trimestre;
  • nas últimas semanas antes do parto;
  • quando há risco elevado de infecção materna ou complicações hematológicas;
  • quando o tratamento pode ser adiado sem comprometer o prognóstico.

Além disso, alguns tratamentos permanecem proibidos durante a gestação.

Tratamentos que geralmente não podem ser feitos na gravidez

Alguns tratamentos para o câncer de mama podem prejudicar o bebê e não são seguros durante a gravidez. Se esses tratamentos forem necessários, geralmente são agendados para depois do nascimento do bebê.

Radioterapia

A radioterapia mamária é frequentemente utilizada após a cirurgia conservadora da mama (lumpectomia) para ajudar a reduzir o risco de recorrência do câncer. As altas doses de radiação utilizadas para esse fim podem prejudicar o bebê em qualquer fase da gravidez. Isso pode causar aborto espontâneo, malformações congênitas, retardo no crescimento fetal ou maior risco de câncer infantil.

Por esse motivo, os médicos não utilizam radioterapia durante a gravidez, porém, aguardar muito tempo para iniciar a radioterapia pode aumentar o risco de recorrência do câncer.

Hormonioterapia

A terapia hormonal é utilizada como tratamento após cirurgia ou como tratamento para câncer de mama avançado em mulheres com câncer de mama com receptores hormonais positivos (estrogênio e/ou progesterona). Os medicamentos utilizados na terapia hormonal para o câncer de mama incluem tamoxifeno, anastrozol, letrozol e exemestano, que atuam “substituindo” o estrogênio no sítio de ação ou reduzindo sua produção.

Por isso, acompanhamento médico regular também é fundamental para:

  • monitorar efeitos colaterais como fogachos, insônia, atrofia e secura vaginal que é causa freqüente de disfunção sexual (dor na relação);
  • proteger a saúde óssea e das articulações;
  • avaliar sinais e sintomas metabólicos e cardiovasculares;
  • ajustar o tratamento quando necessário.

Visto que o tratamento acaba gerando uma “menopausa química” ou “menopausa induzida”.

A terapia hormonal não deve ser administrada durante a gravidez, pois pode afetar o bebê. Deve ser adiada até depois do parto.

Terapias direcionadas

Medicamentos que têm como alvo a proteína sinalizadora para crescimento celular HER2, como Trastuzumabe (Herceptin), Pertuzumabe (Perjeta), Ado-trastuzumabe emtansina (Kadcyla) e lapatinibe (Tykerb), são importantes no tratamento de cânceres de mama HER2-positivos. Porém, com base em estudos com mulheres que foram tratadas durante a gravidez, nenhum desses medicamentos é considerado seguro para o bebê se tomado durante a gestação, por isso não devem ser prescritos para gestantes.

Posso amamentar durante o tratamento?

Medicamentos quimioterápicos, hormonioterapia e terapias direcionadas podem passar para o leite materno e causar toxicidade ao bebê.

Por isso, a amamentação geralmente deve ser interrompida:

  • durante a quimioterapia;
  • durante terapias sistêmicas;
  • e, em alguns casos, por meses após o término do tratamento.

Além disso, interromper a amamentação antes de cirurgias mamárias pode ajudar:

  • a reduzir o risco de infecção;
  • diminuir o fluxo sanguíneo da mama;
  • facilitar o procedimento cirúrgico.

Mesmo assim, muitas mulheres conseguem voltar a amamentar futuramente, dependendo do diagnóstico, do tratamento realizado e da recuperação da mama.

Precisa interromper a gravidez em algum caso?

Antigamente acreditava-se que isso melhoraria as chances de cura da mãe, mas os estudos atuais não demonstram aumento da sobrevida apenas pela interrupção da gravidez e por isso a interrupção da gestação não é mais recomendada.

Em alguns casos específicos, especialmente tumores muito agressivos ou metastáticos, essa possibilidade pode ser discutida individualmente, sempre respeitando os desejos da paciente e a avaliação médica.

A gravidez piora o prognóstico do câncer?

Essa também é uma preocupação frequente.

Os estudos atuais mostram que, quando comparadas mulheres com tumores no mesmo estágio, as taxas de sobrevida entre grávidas e não grávidas são semelhantes.

O grande desafio está no diagnóstico, que muitas vezes demora mais porque alterações nas mamas durante a gravidez e amamentação podem mascarar sinais importantes.

Por isso, qualquer nódulo persistente, alteração da pele (aspecto de casca de laranja/enrugada), secreção ou mudança suspeita deve ser investigada rapidamente.

Uma mensagem importante para mulheres que enfrentam essa fase

O câncer de mama durante a gravidez é assustador, mas não significa o fim da maternidade.

Hoje existem protocolos seguros, tratamentos mais modernos e equipes preparadas para cuidar da mãe e do bebê ao mesmo tempo.

Com informação correta, apoio emocional e acompanhamento especializado, muitas mulheres conseguem atravessar esse momento com segurança, preservar a gestação e seguir vivendo a maternidade de forma plena.

E o que todas nós pedimos: Valorização da Amamentação

E, para encerrarmos, é fundamental cobrar dos nossos representantes, maiores esforços na ampliação de políticas públicas de valorização da amamentação. Isso inclui incentivo ao aleitamento materno, oferta de profissionais especializados em amamentação no SUS, garantia de licença-maternidade adequada ou possibilidade de trabalho remoto que permita um período maior de amamentação, além de apoio à lactação no ambiente de trabalho e redução da propaganda excessiva de fórmulas infantis.

Essas medidas são essenciais porque a amamentação não beneficia apenas o bebê, mas também representa uma importante estratégia de prevenção do câncer de mama para a mulher.

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Referência Bibliográfica

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